Mateus do Carmo, de Jaci-Paraná (RO), quer plantar ‘sementes matemáticas’


Medalhista da OBMEP fará curso em Cambridge

 

 

Quem foi o principal matemático dos últimos 100 anos? A resposta para esta pergunta abriu portas internacionais para Mateus do Carmo, medalhista de bronze pela Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Superando as próprias expectativas, o estudante de 17 anos, de Rondônia, cumpriu o desafio de redigir uma redação em inglês sobre o tema, no concurso da Universidade de Cambridge, que permite que alunos de todo o mundo concorram a vagas em cursos de verão na Inglaterra (Cambridge Summer School Essay Competition). E foi um dos selecionados para mergulhar na aventura matemática em agosto de 2021, com direito a bolsa de estudos de R$ 17 mil. Filho de uma cozinheira atualmente desempregada, o jovem se prepara para sair do Brasil pela primeira vez. 

 

“Se você buscar pelo melhor matemático do século no Google, provavelmente vai encontrar logo de cara informações sobre o alemão David Hilbert, conhecido pela lista dos ‘23 Problemas de Hilbert’. Mas quis fazer algo um pouco fora da curva e escrevi sobre a vida e contribuições acadêmicas de Alan Turing, matemático conhecido pela atuação durante a Segunda Guerra Mundial, pai da computação e da inteligência artificial”, destaca Mateus. 

 

Com ares de especialista no assunto, o estudante destaca que Turing desenvolveu um trabalho crucial para decodificar mensagens que eram enviadas pelos alemães para o exército, ajudando os ingleses a prever as próximas ações no conflito. 

 

Fascinado pela ideia de que matemática vai mudar o mundo, Mateus começou a participar da OBMEP no sexto ano, quando estudava no Colégio Tiradentes da Polícia Militar, em Jaci-Paraná, distrito de Porto Velho, com 5 mil habitantes. “Até o oitavo ano, tentei muito, mas não conseguia passar para a segunda fase da competição. Comecei a estudar mais ainda porque queria provar para mim mesmo que conseguiria chegar lá. Na época, minha mãe também estava desempregada, mas qualquer dinheiro que conseguia, ia na lan house e imprimia provas anteriores da OBMEP para treinar”, conta. Foi neste período também que conheceu a obra “O Homem que Calculava”, descrita pelo jovem como um livro “inesquecível e mágico”. 




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Em 2017, finalmente chegou à tão sonhada participação na segunda etapa da competição. Para garantir a medalha de bronze, não teve segredo. Repetiu a rotina de exercícios no Portal da OBMEP, conferindo a correção, sempre de olho nos erros e acertos. Em novembro daquele ano, pôde se deparar com o nome na lista de medalhistas. “Passei o dia inteirinho pendurado no celular, mas um amigo de Belo Horizonte conseguiu acessar a lista antes de mim e me contou. Não conseguia acreditar, foi uma alegria sem fim!” 

 

A conquista foi um grande marco para Mateus que passou a acreditar em si e a fazer planos para um futuro matemático. Além da medalha de bronze, o estudante levou menções honrosas em 2018 e 2019 na olimpíada. “Nós notamos que onde há mais medalhistas da OBMEP, o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de Rondônia é maior. Isso é muito bom para o engajamento deles com a escola. A maioria dos competidores passa a fazer parte também de grupos de estudos. Temos um projeto com professor Rafael Ferreira, que já foi medalhista nos anos que fez a OBMEP, e agora é docente e responsável pelo PIC”, observa o coordenador regional Marinaldo Felipe da Silva. 

 

Há três anos, Mateus saiu de casa e passou a morar em Porto Velho, onde cursa o ensino técnico no Instituto Federal. Em 2020, deu início ao projeto de ensino de matemática básica e avançada para alunos que, assim como ele, vão prestar o Enem. O treinamento é todo feito através de exercícios da OBMEP e do Pic Jr.

 

“Meu filho sempre foi muito elogiado no colégio. É uma honra vê-lo crescer”, derrete-se Marcia do Carmo, mãe de Mateus. Ao observar a determinação do menino, ela se dedica a apoiá-lo nas decisões e sonhos. “Faz muito tempo, ele me falava que faria alguma coisa fora do país. Dizia, ‘mãe, tenho capacidade para isso e, em algum momento, vai pintar a oportunidade.’ E chegou.” Mesmo com o auxílio estudantil, a mãe conta que ficou apreensiva com os gastos que teriam. “Mas as pessoas incentivaram muito e criamos uma vaquinha virtual. A repercussão foi muito boa e já batemos a meta necessária para garantir a ida de Mateus.” 

 

Depois de Cambridge, ele pretende transformar em realidade o sonho da docência e já tem alguns dos passos traçados para chegar lá. “Quero fazer graduação na Universidade Federal de Minas Gerais, e mestrado e doutorado pelo IMPA”, planeja. Mas mesmo com a experiência que terá em breve no continente europeu e a possível vinda para o Rio de Janeiro, Mateus sabe que voltará para Rondônia, onde vai plantar “sementes matemáticas”. “Quem estuda aqui, sabe que bons professores encontram boas oportunidades e tendem a sair de Jaci-Paraná, por ser muito pequeno. Mas são esses lugares que ficam completamente descobertos no quesito educação. Quero fazer a diferença”, aponta.

 

 

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